Gostaria de compartilhar uma experiência pedagógica que estou atravessando nesta minha estadia em Angola que, apesar do tempo relativamente curto, tem sido demasiadamente enriquecedora.
Numa das turmas que leciono tenho cerca de 100 alunos no primeiro ano da graduação. Em nosso primeiro encontro, no que deveria ser um momento de ambientação, transformou-se num campo de batalha em pleno ambiente de sala de aula, pois os alunos pareciam completamente desmotivados para cursar uma disciplina ministrada por um professor estrangeiro, que para completar era oriundo de um país que também fora ex-colônia de Portugal!
Iniciei de coração aberto tentando estabelecer o chamado diálogo pedagógico, numa tentativa de postura acolhedora, mas obtive poucos ouvidos atentos. Todos queriam falar ao mesmo tempo e a turma do fundão parecia querer testar meus limites a cada instante, tornando a situação insustentável. Para evitar um fiasco pedagógico total, utilizei-me da autoridade docente (não confundir com autoritarismo) e comecei a costurar de forma enérgica alguns acordos com o grupo, definindo-se inequivocamente o tempo para falar e ficar quieto, a necessidade do respeito à fala do colega e do professor, a utilização de telemóvel (como aqui são chamados os aparelhos celulares) etc. Também gastei tempo mostrando a importância da disciplina para a vida profissional deles, mas não senti muita reciprocidade. Meu tempo acabou e me despedi de todos com uma sensação de que teria muitos problemas à frente.
Durante a semana encontrei alguns alunos pelos corredores da universidade e estes foram muito amáveis ao pedir que fosse paciente com a turma, aproveitei e também solicitei paciência recíproca. Na sala de professores esta turma não tinha as melhores referências ... Estava receoso para as aulas seguintes e preparado para o pior, pois na verdade não sabia que estratégias adotar com um grupo tão numeroso e inquieto.
Contudo, quando na próxima aula iniciei a explanação, o silêncio pairava no ar e a maioria parecia mostrar detida atenção; não tive dúvidas, aproveitei a oportunidade para iniciar uma interação com o enorme grupo, lançando perguntas de retórica e, ao falar andava por toda a sala, buscando aproximar-se dos alunos e dirigindo-me individualmente àqueles sentados na frente (turma do gargarejo), no meio e no fundão da sala, estes últimos que causaram tantos transtornos na aula inicial, sentiram-se um pouco desconfortáveis com tamanha atenção. Percebi bom nível de reciprocidade e participação, enfim conseguira instaurar uma aula participativa que tanto prazer dá ao professor e ao aluno!
Na aula subseqüente, utilizei a mesma estratégia: anotei um breve esquema no quadro e continuei perambulando por toda a sala enquanto falava e questionava, muitos queriam respostas para serem prontamente anotadas e eu simplesmente dizia que não possuía receitas de bolos, pois eles teriam que ir atrás das respostas às indagações. Bingo! Parece que consegui chamar a atenção dos alunos e induzi-los a pensar.
Ao sair da sala, escutei um grupo de alunos comentando entre si que minhas aulas tem sido verdadeiras terapias e de fato estão conseguindo pensar de forma mais crítica e não meramente ouvir um professor monotonamente falar sobre o que considera importante. Fiquei tão feliz em ter ouvido este comentário que resolvi compartilhar, pois afinal não são poucos os professores que se encontram em situações similares com turmas pouco acolhedoras. É deveras um desafio docente! Espero continuar conseguindo manter o mesmo nível de aulas que tive nesta semana.
Em tempo, a coordenação do curso tampouco concorda com turmas tão numerosas e visto que não há espaço físico disponível na instituição para dividir esta turma, concordamos que nos próximos semestres, o número máximo por turma será de 50 alunos. Ufa!
quarta-feira, 29 de abril de 2009
domingo, 26 de abril de 2009
Reflexões sobre atendimento ao cliente
Ao almoçar com um colega brasileiro neste domingo, iniciamos uma discussão sobre o nível de atendimento ao cliente que temos observado em Luanda, pois depois de perambular por 03 restaurantes e finalmente optarmos pelo último, verificamos que os atendentes não eram corteses o suficiente para justificar a escolha. Não é que tenham sido grosseiros ou deseducados, o que ocorria era a ausência de gestos de simpatia e acolhimento visando nos cativar como clientes.
No início de minha vida acadêmica lecionei a disciplina Fundamentos de Marketing em que buscava destacar a importância das empresas atentarem para o atendimento ao cliente, visando antecipar-se às suas necessidades. A literatura disponível sobre o assunto é demasiadamente profícua e certamente não pode ser desapercebida por aqueles que atuam em mercados competitivos. Luis Marins, escritor e requisitado palestrante na temática, adiciona condimentos ao debate ao propor o “encantamento do cliente” e dá algumas técnicas sobre como conseguir isso.
De fato, os profissionais de marketing estão cientes da chamada dissonância cognitiva, isto é, o nível de satisfação que um serviço ou produto é capaz de gerar em função da expectativa do cliente. Dizem os teóricos, que quanto menor for o nível de dissonância cognitiva, maior será a sua satisfação, cabendo às empresas esforçar-se para reduzir este gap visando alcançar padrão de satisfação considerado ideal. Seria isto possível?
A questão é que tanto no Brasil quanto em Angola, os clientes têm sido muito desprezados. As empresas de telefonia no Brasil são campeãs no volume de queixas nos órgãos de defesa do consumidor, isso depois do cliente ter sobrevivido à saga de tentar resolver seu problema através dos precários serviços de atendimento ao cliente, ou call centers, que mereceriam um capítulo à parte nestas considerações.
Nas minhas perambulações pelo mundo tenho observado que esta não é um herança específica dos países colonizados por Portugal, pois notei grosserias em lugares como Argentina, Uruguai, Alemanha, Itália, França e Estados Unidos, somente para se mencionar alguns lugares.
É bem verdade que nesta discussão não se pode ignorar a cultura, nem tampouco o nível de concorrência dos mercados. Como já mencionei em outra postagem, o brasileiro é tido como sensível, pois não suporta palavras mais fortes que lhe soam como uma agressão, principalmente quando está no papel de cliente. O angolano tampouco gosta de ser mal tratado, contudo, parece-me que graças ao longo período de colonização portuguesa caracterizada pela forte repressão do colonizador, juntamente com a atual demanda notoriamente superior à oferta dos principais itens de serviços, as pessoas daqui acabam por tornarem-se subservientes. Isto é uma hipótese e não pode ser generalizada para todo um povo, pois já encontrei pessoas muito conscientes de seus direitos e deveres!
No entanto, não estariam os prestadores de serviços brasileiros enganando seus consumidores fazendo-se crer que são bem atendidos, quando pelas costas empunham-lhes um faca? Talvez em Luanda tais prestadores não precisam utilizar falsas máscaras, pois sabem que os consumidores não terão muitas opções e, cedo ou tarde, certamente voltarão. Aconteceu isso comigo no incidente da compra das batatas doces, quando a senhora dos balaios ambulantes recusou-se a aceitar minha contra-oferta, deu-me as costas e fiquei sem os tubérculos para o café; porém, no dia seguinte paguei prontamente o que ela propunha, sem maiores negociações. Seria esse um exemplo atípico da “mão invisível do mercado “de Adam Smith?
“Nem tanto ao mar nem tanto a terra” diz um ditado brasileiro. Talvez os prestadores de serviços não precisassem ser tão falsamente pegajosos, como observamos em muitas lojas nos grandes centros brasileiros. Por outro lado, o cliente não deveria ser tão desprezado como ocorre em Luanda e em tantos outros lugares do mundo em que inexiste o chamado “sorriso na voz”. Considero a resolução desta equação um dilema e ao mesmo tempo um desafio!
No início de minha vida acadêmica lecionei a disciplina Fundamentos de Marketing em que buscava destacar a importância das empresas atentarem para o atendimento ao cliente, visando antecipar-se às suas necessidades. A literatura disponível sobre o assunto é demasiadamente profícua e certamente não pode ser desapercebida por aqueles que atuam em mercados competitivos. Luis Marins, escritor e requisitado palestrante na temática, adiciona condimentos ao debate ao propor o “encantamento do cliente” e dá algumas técnicas sobre como conseguir isso.
De fato, os profissionais de marketing estão cientes da chamada dissonância cognitiva, isto é, o nível de satisfação que um serviço ou produto é capaz de gerar em função da expectativa do cliente. Dizem os teóricos, que quanto menor for o nível de dissonância cognitiva, maior será a sua satisfação, cabendo às empresas esforçar-se para reduzir este gap visando alcançar padrão de satisfação considerado ideal. Seria isto possível?
A questão é que tanto no Brasil quanto em Angola, os clientes têm sido muito desprezados. As empresas de telefonia no Brasil são campeãs no volume de queixas nos órgãos de defesa do consumidor, isso depois do cliente ter sobrevivido à saga de tentar resolver seu problema através dos precários serviços de atendimento ao cliente, ou call centers, que mereceriam um capítulo à parte nestas considerações.
Nas minhas perambulações pelo mundo tenho observado que esta não é um herança específica dos países colonizados por Portugal, pois notei grosserias em lugares como Argentina, Uruguai, Alemanha, Itália, França e Estados Unidos, somente para se mencionar alguns lugares.
É bem verdade que nesta discussão não se pode ignorar a cultura, nem tampouco o nível de concorrência dos mercados. Como já mencionei em outra postagem, o brasileiro é tido como sensível, pois não suporta palavras mais fortes que lhe soam como uma agressão, principalmente quando está no papel de cliente. O angolano tampouco gosta de ser mal tratado, contudo, parece-me que graças ao longo período de colonização portuguesa caracterizada pela forte repressão do colonizador, juntamente com a atual demanda notoriamente superior à oferta dos principais itens de serviços, as pessoas daqui acabam por tornarem-se subservientes. Isto é uma hipótese e não pode ser generalizada para todo um povo, pois já encontrei pessoas muito conscientes de seus direitos e deveres!
No entanto, não estariam os prestadores de serviços brasileiros enganando seus consumidores fazendo-se crer que são bem atendidos, quando pelas costas empunham-lhes um faca? Talvez em Luanda tais prestadores não precisam utilizar falsas máscaras, pois sabem que os consumidores não terão muitas opções e, cedo ou tarde, certamente voltarão. Aconteceu isso comigo no incidente da compra das batatas doces, quando a senhora dos balaios ambulantes recusou-se a aceitar minha contra-oferta, deu-me as costas e fiquei sem os tubérculos para o café; porém, no dia seguinte paguei prontamente o que ela propunha, sem maiores negociações. Seria esse um exemplo atípico da “mão invisível do mercado “de Adam Smith?
“Nem tanto ao mar nem tanto a terra” diz um ditado brasileiro. Talvez os prestadores de serviços não precisassem ser tão falsamente pegajosos, como observamos em muitas lojas nos grandes centros brasileiros. Por outro lado, o cliente não deveria ser tão desprezado como ocorre em Luanda e em tantos outros lugares do mundo em que inexiste o chamado “sorriso na voz”. Considero a resolução desta equação um dilema e ao mesmo tempo um desafio!
sexta-feira, 24 de abril de 2009
Sobre os preços em Angola

É necessário tecer comentários sobre os preços de itens alimentícios praticados em Luanda, considerados os mais caros do mundo.
A moeda local é o Kwanza que pelo câmbio de hoje equivale a U$D 79 e R$ 31. Tanto o Kwanza como o dólar convivem pacificamente no dia-a-dia dos angolanos, sendo possível efetuar compras com ambas moedas concomitantemente, pois as pessoas locais já estão acostumadas e fazem o câmbio com uma rapidez impressionante. Paga-se em dólar, recebe-se troco em Kwanza e por ai vai ...
Existem mercados e mini-mercados espalhados por toda a cidade, a questão é o valor das mercadorias que são elevadas. Para se ter uma idéia, hoje no almoço fui a uma restaurante próximo, muito simples e sem luxos, e pedi o prato do dia equivalente a Kz 1.700 ou US$ 21,50, que consistia num peixe grelhado, arroz, meia fatia de banana cozida e duas fatias de batata doce e só.
Encontramos um restaurante bom, perto do centro, que serve comida a quilo ou take away, como dizem aqui. O interessante é que embora a comida seja pesada, quem serve a porção no prato é o garçom, sob a orientação do cliente. Chama-se Flor da Sé e tem um cardápio variado e sabor bem agradável, com um valor relativamente acessível para os preços locais. Contudo é necessário enfrentar longas e demoradas filas e depois disputar de qualquer lugar disponível, pois o lugar é pequeno para a demanda. Percebo que a gastronomia é um dos segmentos que carecem de investimentos por aqui, quem quiser investir ...
Contudo, é um deleite ir ao mini-mercado, caso não tente converter todos os preços para o R$. Existem produtos de todas as partes do mundo, coisas que sequer conhecia. Neste momento estou tomando um suco embalado na África do Sul, com alguns biscoitos italianos e manteiga francesa. O conselho dos brasileiros que residem há mais tempo é de esquecer este negócio de conversão das moedas, pois por motivos óbvios aqui não é possível encontrar os mesmos valores praticados no Brasil. O importante é tentar manter a liquidez para não decretar falência pessoal e solicitar remessas de dinheiro dos amigos do além mar. (rs)

Também é possível comprar legumes e frutas em todo lugar, pois são facilmente encontrados com senhoras que os carregam na cabeça em balaios para pronta revenda, alguns dos quais com aspectos higiênicos questionáveis. Entretanto, hoje tentei negociar a compra de batatas doce (que pareciam ter bom aspecto), com uma senhora que tem um ponto em frente à portaria do prédio em que moro. Imaginem que ela me pediu Kz 500 (R$ 16,12) por 07 batatas , ofereci Kz 200 (R$ 6,45) por 03 batatas e ela não aceitou e se recusou a vender; nem me deu atenção e, o pior, fiquei sem batatas para o café da noite. Os angolanos são duros na queda, vou continuar exercitando a arte da negociação, mas terei que mudar as estratégias.
A moeda local é o Kwanza que pelo câmbio de hoje equivale a U$D 79 e R$ 31. Tanto o Kwanza como o dólar convivem pacificamente no dia-a-dia dos angolanos, sendo possível efetuar compras com ambas moedas concomitantemente, pois as pessoas locais já estão acostumadas e fazem o câmbio com uma rapidez impressionante. Paga-se em dólar, recebe-se troco em Kwanza e por ai vai ...
Existem mercados e mini-mercados espalhados por toda a cidade, a questão é o valor das mercadorias que são elevadas. Para se ter uma idéia, hoje no almoço fui a uma restaurante próximo, muito simples e sem luxos, e pedi o prato do dia equivalente a Kz 1.700 ou US$ 21,50, que consistia num peixe grelhado, arroz, meia fatia de banana cozida e duas fatias de batata doce e só.
Encontramos um restaurante bom, perto do centro, que serve comida a quilo ou take away, como dizem aqui. O interessante é que embora a comida seja pesada, quem serve a porção no prato é o garçom, sob a orientação do cliente. Chama-se Flor da Sé e tem um cardápio variado e sabor bem agradável, com um valor relativamente acessível para os preços locais. Contudo é necessário enfrentar longas e demoradas filas e depois disputar de qualquer lugar disponível, pois o lugar é pequeno para a demanda. Percebo que a gastronomia é um dos segmentos que carecem de investimentos por aqui, quem quiser investir ...
Contudo, é um deleite ir ao mini-mercado, caso não tente converter todos os preços para o R$. Existem produtos de todas as partes do mundo, coisas que sequer conhecia. Neste momento estou tomando um suco embalado na África do Sul, com alguns biscoitos italianos e manteiga francesa. O conselho dos brasileiros que residem há mais tempo é de esquecer este negócio de conversão das moedas, pois por motivos óbvios aqui não é possível encontrar os mesmos valores praticados no Brasil. O importante é tentar manter a liquidez para não decretar falência pessoal e solicitar remessas de dinheiro dos amigos do além mar. (rs)

Também é possível comprar legumes e frutas em todo lugar, pois são facilmente encontrados com senhoras que os carregam na cabeça em balaios para pronta revenda, alguns dos quais com aspectos higiênicos questionáveis. Entretanto, hoje tentei negociar a compra de batatas doce (que pareciam ter bom aspecto), com uma senhora que tem um ponto em frente à portaria do prédio em que moro. Imaginem que ela me pediu Kz 500 (R$ 16,12) por 07 batatas , ofereci Kz 200 (R$ 6,45) por 03 batatas e ela não aceitou e se recusou a vender; nem me deu atenção e, o pior, fiquei sem batatas para o café da noite. Os angolanos são duros na queda, vou continuar exercitando a arte da negociação, mas terei que mudar as estratégias.
Crédito das fotos:
Foto Cuca: José Cardoso, Francisco Lopes e São Pinhão.
Foto Mulheres Vendendo frutas e verduras: Alexandre Coutinho
quinta-feira, 23 de abril de 2009
Para não dizer que não falei das flores
Apesar do tom pouco favorável nas postagens anteriores, percebo que este país apresenta excelentes condições para aqueles que desejam investir, visto que tudo está para ser feito.
No ano passado, a Angola apresentou um crescimento econômico de dois dígitos e a previsão deste ano é alcançar um crescimento em torno de
um dígito, quando o mundo todo fala de perdas e crescimento negativo. Andando pelo caótico centro luandense, percebe-se uma quantidade imensa de gruas com prédios em construção e as perspectivas parecem ser boas.
As principais riquezas são o petróleo e o diamante. Ademais, dos 12 minérios necessários para a indústria atômica, o país possui 09, o que o torna muito assediado. Também cabe notar que possui uma população semelhante a Portugal, cerca de 14 milhões, contudo seu território é algumas vezes vezes maior!
Angola é um país da África que libertou-se do colonialismo português tar
diamente, no final da década de 70, através de luta armada e logo depois mergulhou numa sangrenta guerra civil terminada em 2002. Dos dois partidos que se degladiaram, um deles está no poder com amplo apoio popular, ainda que o presidente da república dizem que está no poder há nada menos que 30 anos.
A elite intelectual luandense estudou em Cuba e Lisboa e foram estes os detonadores da guerrilha contra o colonizador, hoje a maioria ocupa cargos públicos governamentais. Tive um contato com um intelectual facinante que doutorou-se em Havana, além de ter sido um compositor e esportista e profundo conhecedor da cultura africana. Uma pessoa de uma cultura extraordinária!
Todavia o analfabetismo é elevadíssimo e somente 0,5% possuem a escolaridade em nível superior! O fato de tão poucos terem o nível superior conduz a situações cômicas. Por exemplo, esta semana tive que procurar a Dra. Fulana, a fim de tratar de uma especificidade de minha chegada na instituição. Todavia, descobri que esta será minha aluna no curso de graduação! Por questão de respeito à cultura local, continuei chamando a aluna de "Doutora" e percebi que todos os professores são "doutores", independente do seu grau acadêmico. Como costumamos dizer "em terra de cego quem tem um olho é rei".
O português falado aqui é muito engraçado para nós brasileiros. Muitos expressões são rudes e, se usadas no Brasil, seriam sinônimo de falta de educação. Estou tentando me acostumar, pois eles dizem que os brasileiros são muito sensíveis (rs). Como em Portugal, o gerúndio aqui não é utilizado tão amplamente como no Brasil; então estamos sempre "a escrever", "a utilizar", "a dar aula" e ao procurar a fila do supermercado descobri que ninguém sabia o que era isto, pois aqui a nossa "fila" é chamada de " bicha"! E quando alguém não entende algo do que você está a falar, costumam dizer "não percebo".
Na minha última aula não entendi uma pergunta de um aluno, apesar deste ter repetido por 03 vezes, precisei da ajuda da turma para decodificar. Além de algumas diferenças de palavras, o sotaque é muito forte e as sílabas tônicas daqui são distintas, o que pode gerar um problema de comunicação. De maneira geral, os angolanos estão acostumados com os brasileiros, pois dizem que existem cerca de 40.000 conterrâneos e as novelas da Globo são muito comentadas.
Ainda não visitei as praias, que dizem ser lindas e assim que for ao interior das províncias farei um relato.
No ano passado, a Angola apresentou um crescimento econômico de dois dígitos e a previsão deste ano é alcançar um crescimento em torno de
um dígito, quando o mundo todo fala de perdas e crescimento negativo. Andando pelo caótico centro luandense, percebe-se uma quantidade imensa de gruas com prédios em construção e as perspectivas parecem ser boas.As principais riquezas são o petróleo e o diamante. Ademais, dos 12 minérios necessários para a indústria atômica, o país possui 09, o que o torna muito assediado. Também cabe notar que possui uma população semelhante a Portugal, cerca de 14 milhões, contudo seu território é algumas vezes vezes maior!
Angola é um país da África que libertou-se do colonialismo português tar
diamente, no final da década de 70, através de luta armada e logo depois mergulhou numa sangrenta guerra civil terminada em 2002. Dos dois partidos que se degladiaram, um deles está no poder com amplo apoio popular, ainda que o presidente da república dizem que está no poder há nada menos que 30 anos.A elite intelectual luandense estudou em Cuba e Lisboa e foram estes os detonadores da guerrilha contra o colonizador, hoje a maioria ocupa cargos públicos governamentais. Tive um contato com um intelectual facinante que doutorou-se em Havana, além de ter sido um compositor e esportista e profundo conhecedor da cultura africana. Uma pessoa de uma cultura extraordinária!
Todavia o analfabetismo é elevadíssimo e somente 0,5% possuem a escolaridade em nível superior! O fato de tão poucos terem o nível superior conduz a situações cômicas. Por exemplo, esta semana tive que procurar a Dra. Fulana, a fim de tratar de uma especificidade de minha chegada na instituição. Todavia, descobri que esta será minha aluna no curso de graduação! Por questão de respeito à cultura local, continuei chamando a aluna de "Doutora" e percebi que todos os professores são "doutores", independente do seu grau acadêmico. Como costumamos dizer "em terra de cego quem tem um olho é rei".
O português falado aqui é muito engraçado para nós brasileiros. Muitos expressões são rudes e, se usadas no Brasil, seriam sinônimo de falta de educação. Estou tentando me acostumar, pois eles dizem que os brasileiros são muito sensíveis (rs). Como em Portugal, o gerúndio aqui não é utilizado tão amplamente como no Brasil; então estamos sempre "a escrever", "a utilizar", "a dar aula" e ao procurar a fila do supermercado descobri que ninguém sabia o que era isto, pois aqui a nossa "fila" é chamada de " bicha"! E quando alguém não entende algo do que você está a falar, costumam dizer "não percebo".
Na minha última aula não entendi uma pergunta de um aluno, apesar deste ter repetido por 03 vezes, precisei da ajuda da turma para decodificar. Além de algumas diferenças de palavras, o sotaque é muito forte e as sílabas tônicas daqui são distintas, o que pode gerar um problema de comunicação. De maneira geral, os angolanos estão acostumados com os brasileiros, pois dizem que existem cerca de 40.000 conterrâneos e as novelas da Globo são muito comentadas.
Ainda não visitei as praias, que dizem ser lindas e assim que for ao interior das províncias farei um relato.
Crédito das fotos: José Cardoso, Francisco Lopes e São Pinhão. Disponível em: http://www.cpires.com/fotos_de_luanda_2005.html
terça-feira, 21 de abril de 2009
Chegada a Luanda

Embora tenha chegado em Luanda, Angola, no último domingo 19.04 ainda estou em fase de adaptação a esta nova realidade. Aqui as coisas são um pouco difíceis, afinal trata-se de um país recém saído de uma guerra violenta, são tantas coisas a serem feitas por aqui que acredito que precisarão de pelo menos algumas décadas para arrumar.
Como a guerra é cruel, especialmente para os mais pobres; sinto muita compaixão destas pessoas, cujo sofrimento está visivelmente estampado em suas faces.
Luanda poderia ser retratada por Dante como uma visão materializada do
inferno, exageros à parte, o trânsito é inimaginável e capaz de colocar no bolso qualquer congestionamento no Brasil. Os carros estacionam em qualquer lugar, em filas duplas, triplas, quádruplas, em cima das calçadas, obrigando o pedestre a andar no meio das ruas e disputar espaços entre carros e motos em movimento, enfim um caos urbano.
Estou acomodado num apartamento amplo, muito bom e localizado no centro da cidade. A questão é que o centro carece de infraestrutura, com esgotos a céu aberto, coleta de lixo irregular e nem todas as ruas são asfaltadas, somente as principais.

O que me chama atenção é o volume de carros novos desta cidade com modelos que nunca vi, coisa de outro mundo. Pelo que constatei com US$ 20.000 pode-se comprar um carrão da Hunday ou coisa parecida.

A Universidade que atuo segue possui cerca 5.000 alunos no campus de Luanda, localizada na balburdia do centro. Parte das instalações são boas e outras em fase de ampliação. O que me chamou atenção aqui é a existência do ano Propedêudico, ou ano zero, um período de nivelamento para o curso superior. Uma idéia muito interessante.
As expectativas acadêmicas são boas, contudo ainda preciso superar meu estado de choque inicial.
Como a guerra é cruel, especialmente para os mais pobres; sinto muita compaixão destas pessoas, cujo sofrimento está visivelmente estampado em suas faces.
Luanda poderia ser retratada por Dante como uma visão materializada do
inferno, exageros à parte, o trânsito é inimaginável e capaz de colocar no bolso qualquer congestionamento no Brasil. Os carros estacionam em qualquer lugar, em filas duplas, triplas, quádruplas, em cima das calçadas, obrigando o pedestre a andar no meio das ruas e disputar espaços entre carros e motos em movimento, enfim um caos urbano.Estou acomodado num apartamento amplo, muito bom e localizado no centro da cidade. A questão é que o centro carece de infraestrutura, com esgotos a céu aberto, coleta de lixo irregular e nem todas as ruas são asfaltadas, somente as principais.

O que me chama atenção é o volume de carros novos desta cidade com modelos que nunca vi, coisa de outro mundo. Pelo que constatei com US$ 20.000 pode-se comprar um carrão da Hunday ou coisa parecida.
A Universidade que atuo segue possui cerca 5.000 alunos no campus de Luanda, localizada na balburdia do centro. Parte das instalações são boas e outras em fase de ampliação. O que me chamou atenção aqui é a existência do ano Propedêudico, ou ano zero, um período de nivelamento para o curso superior. Uma idéia muito interessante.
As expectativas acadêmicas são boas, contudo ainda preciso superar meu estado de choque inicial.
Crédito das fotos: José Cardoso, Francisco Lopes e São Pinhão. Disponível em: http://www.cpires.com/fotos_de_luanda_2005.html
domingo, 19 de abril de 2009
Primeiras impressões de Luanda
Cheguei em Luanda no domingo 19.04.09 após uma viagem longa pelo Atlântico pela TAAG, linha aérea local. À primeira vista os trâmites de entrada no país foram normais, embora excessivamente lentos, o que verificaria depois ser uma marca registrada.
Fato curioso na chegada foi o agente público da imigração ter solicitado uma propina para um colega de viagem que não o atendeu e teve seu bilhete de despacho das bagagens convenientemente extraviado.
O aeroporto está em reforma, razão pela qual não é necessário descrevê-lo, pois a balburdia existente espera-se que seja apenas provisória.
Todavia, os bairros nos arredores do aeroporto são de uma pobreza extrema, capaz de chocar o visitante mais desavisado. Embora cheguei num domingo, o trânsito era intenso, depois compreenderia que os congestionamentos são uma marca registrada de Luanda, projeta
da para 500 mil habitantes e atualmente com 4 milhões.
Após as boas vindas pela empresa, ficamos numa casa de passagem localizada num bairro nobre, totalmente diferente da visão dantesca da chegada. Visitamos naquela tarde o único Shopping da cidade, que merece um relato à parte.
Enfim estava na África, apreensivo mas animado com os desafios à frente.
Fato curioso na chegada foi o agente público da imigração ter solicitado uma propina para um colega de viagem que não o atendeu e teve seu bilhete de despacho das bagagens convenientemente extraviado.
O aeroporto está em reforma, razão pela qual não é necessário descrevê-lo, pois a balburdia existente espera-se que seja apenas provisória.
Todavia, os bairros nos arredores do aeroporto são de uma pobreza extrema, capaz de chocar o visitante mais desavisado. Embora cheguei num domingo, o trânsito era intenso, depois compreenderia que os congestionamentos são uma marca registrada de Luanda, projeta
da para 500 mil habitantes e atualmente com 4 milhões.Após as boas vindas pela empresa, ficamos numa casa de passagem localizada num bairro nobre, totalmente diferente da visão dantesca da chegada. Visitamos naquela tarde o único Shopping da cidade, que merece um relato à parte.
Enfim estava na África, apreensivo mas animado com os desafios à frente.
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