domingo, 7 de junho de 2009

Reserva-se o direito de admissão

Juntamente com um grupo de amigos portugueses tive a oportunidade de conhecer ontem a discoteca Chilliout, na Ilha de Luanda: um lugar aprazível à beira mar em que a pista de dança termina próximo da areia e bem próximo às ondas do mar.

De freqüência heterogênea percebemos um grande número de estrangeiros (ou expatriados, como são chamados aqui), misturando-se ao povo local no ritmo dançante do Dg. Muita gente bonita! Perguntei-me onde se esconderiam estas pessoas no dia-a-dia.

Ao chegar na entrada da danceteria nos posicionamos no final da fila e fomos surpreendidos com o segurança nos chamando para entrar, não obstante todas as pessoas à nossa frente. Imaginei que meus colegas talvez tivessem um bilhete Vip, mas não era o caso. Percebi logo em seguida que a casa reserva o direito de admissão!

Não sei que critérios subjetivos ou econômicos são utilizados mas a verdade é que me senti um pouco constrangido até entender o que estava ocorrendo. Certamente não foram meus lindos olhos, nem tampouco minha aparência exuberante ...

O direito de admissão revela uma forte discriminação social, pois deixa à mercê de uns poucos a escolha de quem entra ou não, independente da casa estar cheia ou vazia. Pergunto-me se não seria menos ruim manter “apenas” a discriminação econômica; digo isto pois cobrar Kz 2.000 (cerca U$D 26) pelo ingresso já é uma forma de discriminar, pois aqui muitos sequer têm este valor para sua subsistência diária. Ouvi dizer que o salário mínimo local é de U$D 60!

“Reserva-se o direito de admissão”é uma maneira elegante de dizer “Nós somente aceitamos ricos e bonitos”, como não sou rico creio que fui categorizado como bonito que acrescento por conta própria “gostoso” (rs).

quinta-feira, 4 de junho de 2009

“O Malefício”

No funeral de um burocrata corrupto desfilam figuras que expressam um prazer sádico pela sorte do moribundo, um enterro desprovido de dor. À medida que se lê as mensagens registradas no Livro de Condolências, percebe-se o elevado nível de corrupção de caráter que impregnou a vida do morto: “Que a terra lhe seja mesmo pesada” escreve um dos supostos explorados.

Estas cenas fazem parte do primeiro ato da peça “O malefício” que estreou hoje (04.06) no Centro Cultural Português. Dirigida por Fernandes Jose, os atores da Cia de Teatro Dadaísmo deram um show de performance e deixaram a platéia atenta durante todo o espetáculo. Baseada em dois contos de Roderick Nehone, renomado autor angolano, a peça retrata as angustias e dissabores a que somos expostos no dia-a-dia.

No segundo ato é encenado o conto “O Malefício”, que dá nome à peça, e então os atores superam-se nos diálogos fortes e profundos que Roderick Nehone nos põe a refletir, com uma sagacidade de roteiro impressionante, que tem como pano de fundo o diálogo entre dois cientistas sobre um vírus para eliminar a humanidade, isto é, "a maioria silenciosa, que apenas acorda, come, fornica e se multiplica; essa maioria silenciosa que não inventa nada, apenas consome, não decide, só cumpre, não cogita, contempla e tal como rebanho são conduzidos cegamente para o pasto ou para o cadafalso". Diálogos com argumentos como estes discutem os prós e contras deste maléfico vírus e tornam a peça agradavelmente deliciosa.




Luanda tem surpresas culturais interessantes!

quinta-feira, 14 de maio de 2009

O milagre do Candeal

A fim de começar a me envolver com os eventos culturais de Luanda fui assistir um filme documentário, como para do 11º Ciclo de Cinema Europeu, no Espaço Cultural da Embaixada de Portugal em Angola.



O filme documentário intitulado “O milagre do Candeal”, de Fernando Trueba, 2004, retrata o bairro do Candeal, em Salvador/BA, Brasil, utilizando-se como elemento narrativo a visita do famoso pianista cubano Bebo Valdês, exilado na Estocolmo há 40 anos. O filme demonstra como através da música é possível soerguer de forma cidadã a dignidade humana.



São vários os artistas baianos que dão entrevistas e, ao mesmo tempo, nos brindam cantando partes de suas músicas. Desde a comovente cena inicial, com Mateus Aleluia cantando na Igreja dos Homens Pretos no Pelourinho, depois Caetano Veloso , Gilberto Gil e Marisa Montes entre outros, sempre acompanhados por Carlinhos Brown, cujo nome já é sinônimo do Candeal. Foram cenas distintas, muitas delas tendo a Bahia de Todos os Santos como fundo e por vários momentos tive que conter as lágrimas, tamanho o encanto que as cenas causavam.



Um dos momentos marcantes do filme foi a cena em que Carlinhos Brown leva Valdês para conhecer a mãe-de-santo do Candeal. A seqüência é relativamente simples em que Carlinhos canta ao som do violão uma música ensinada pela matriarca enquanto ainda era criança e, numa mescla de língua africana, indígena e português, comenta sobre a natureza. Ao término, o cantor faz um efusivo discurso sobre a natureza do ser humano que, não obstante sua cor de pele, deve respeitar a natureza como uma dádiva e, neste momento a mãe-de-santo recebe uma entidade espiritual. O que me chocou foi, apesar de estar em solo africano, as pessoas na platéia (a maioria de origem européia) demonstrarem desrespeito a este momento sublime da película, muitos até mesmo rindo desdenhosamente da matriarca e os gestos característicos de sua religião. O respeito é uma virtude a ser cultivada!



No entanto, “O Milagre do Candeal “consiste em se transformar um bairro pobre, incrustado no meio de bairros ricos, num local digno em que seus moradores são capazes de se orgulhar em viver e atuam de forma cidadã no cumprimento de seus deveres e busca dos direitos.



Um filme belíssimo que vale a pena ser visto e protagonizado em tantos outros bairros em que o despertar para a cidadania resulta numa vida mais digna.



Parabéns Carlinhos Brown por ajudar o povo sofrido do Candeal a despertar para um mundo melhor!

domingo, 10 de maio de 2009

Gafes em Luanda ...

iMorar num país estrangeiro pode ser um cenário para gafes formidáveis, que dificilmente cometeríamos em nossa própria paróquia, como observarão a seguir.

Hoje, em pleno domingo, resolvemos andar pelas ruas adjacentes do bairro em que estamos alojados em Luanda com o objetivo de encontrar novas opções de alimentação, afinal comer sempre no mesmo lugar dá aquela sensação dejá vu.

Em nossa perambulação pela vizinhança encontramos um restaurante popular árabe que resolvemos experimentar, não obstante ser um pouco caro para a proposta (2000 kwz ou U$D 26), afinal já estou me acostumando com estes valores elevados praticados por aqui). Primeira indecisão foi nos pratos disponíveis no buffet (servido no autêntico estilo do “prato feito” do Brasil. Felizmente minha opção foi deliciosamente devorada: um misto de carne cozida com quiabos libaneses e temperos diversos com uma singela porção de arroz. Após chegar o prato feito, como de costume, o garçom perguntou-me sobre bebida e, ávido por uma cerveja, prontamente solicitei a loira gostosa, quando este com uma “cara pouco amistosa” informou-me que se tratava de um restaurante muçulmano e não servia bebidas alcoólicas. Foi só então que dei-me conta que nas mesas ao lado todos estavam a tomar sucos e refrigerantes. Constrangido, pedi desculpas e mergulhei no prato como forma de esconder minha gafe ...

Na semana passada, quando tivemos uma ausência temporária de nossa secretária, aventurei-me em lavar os banheiros, tarefa absolutamente simples se não fosse a total ausência de ralos para esgotos! Não somente no banheiro, mas no inteiro apartamento não temos um ralo sequer. Pena que somente descobri isso depois de ter despejado dois baldes de água e ver aquele dilúvio a invadir a sala e os quartos ... Foi um Deus nos acuda!

Para relaxar segue abaixo fotos que tirei de algumas placas de ruas aqui em Luanda. Algumas delas consta inclusive observações do homenageado. Observem como são elegantes!

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Luanda - fotos de um feriado






Aproveitando o feriado internacional do dia do Trabalho, hoje pela manhã resolvi perambular pelos arredores do centro e consegui tirar algumas fotos amadoras que demonstram a semelhança de Luanda com a cidade de Salvador - Bahia.



























Ressalto tomei cuidados em tirar fotos dos prédios públicos, pois as autoridades locais ainda não estão acostumadas com o turismo e algumas chegam a ponto de confiscar a máquina fotográfica, resquícios dos anos de guerra.














































































quarta-feira, 29 de abril de 2009

Desafio docente: aprendendo a dar aulas para turmas numerosas na África

Gostaria de compartilhar uma experiência pedagógica que estou atravessando nesta minha estadia em Angola que, apesar do tempo relativamente curto, tem sido demasiadamente enriquecedora.


Numa das turmas que leciono tenho cerca de 100 alunos no primeiro ano da graduação. Em nosso primeiro encontro, no que deveria ser um momento de ambientação, transformou-se num campo de batalha em pleno ambiente de sala de aula, pois os alunos pareciam completamente desmotivados para cursar uma disciplina ministrada por um professor estrangeiro, que para completar era oriundo de um país que também fora ex-colônia de Portugal!


Iniciei de coração aberto tentando estabelecer o chamado diálogo pedagógico, numa tentativa de postura acolhedora, mas obtive poucos ouvidos atentos. Todos queriam falar ao mesmo tempo e a turma do fundão parecia querer testar meus limites a cada instante, tornando a situação insustentável. Para evitar um fiasco pedagógico total, utilizei-me da autoridade docente (não confundir com autoritarismo) e comecei a costurar de forma enérgica alguns acordos com o grupo, definindo-se inequivocamente o tempo para falar e ficar quieto, a necessidade do respeito à fala do colega e do professor, a utilização de telemóvel (como aqui são chamados os aparelhos celulares) etc. Também gastei tempo mostrando a importância da disciplina para a vida profissional deles, mas não senti muita reciprocidade. Meu tempo acabou e me despedi de todos com uma sensação de que teria muitos problemas à frente.


Durante a semana encontrei alguns alunos pelos corredores da universidade e estes foram muito amáveis ao pedir que fosse paciente com a turma, aproveitei e também solicitei paciência recíproca. Na sala de professores esta turma não tinha as melhores referências ... Estava receoso para as aulas seguintes e preparado para o pior, pois na verdade não sabia que estratégias adotar com um grupo tão numeroso e inquieto.

Contudo, quando na próxima aula iniciei a explanação, o silêncio pairava no ar e a maioria parecia mostrar detida atenção; não tive dúvidas, aproveitei a oportunidade para iniciar uma interação com o enorme grupo, lançando perguntas de retórica e, ao falar andava por toda a sala, buscando aproximar-se dos alunos e dirigindo-me individualmente àqueles sentados na frente (turma do gargarejo), no meio e no fundão da sala, estes últimos que causaram tantos transtornos na aula inicial, sentiram-se um pouco desconfortáveis com tamanha atenção. Percebi bom nível de reciprocidade e participação, enfim conseguira instaurar uma aula participativa que tanto prazer dá ao professor e ao aluno!


Na aula subseqüente, utilizei a mesma estratégia: anotei um breve esquema no quadro e continuei perambulando por toda a sala enquanto falava e questionava, muitos queriam respostas para serem prontamente anotadas e eu simplesmente dizia que não possuía receitas de bolos, pois eles teriam que ir atrás das respostas às indagações. Bingo! Parece que consegui chamar a atenção dos alunos e induzi-los a pensar.


Ao sair da sala, escutei um grupo de alunos comentando entre si que minhas aulas tem sido verdadeiras terapias e de fato estão conseguindo pensar de forma mais crítica e não meramente ouvir um professor monotonamente falar sobre o que considera importante. Fiquei tão feliz em ter ouvido este comentário que resolvi compartilhar, pois afinal não são poucos os professores que se encontram em situações similares com turmas pouco acolhedoras. É deveras um desafio docente! Espero continuar conseguindo manter o mesmo nível de aulas que tive nesta semana.


Em tempo, a coordenação do curso tampouco concorda com turmas tão numerosas e visto que não há espaço físico disponível na instituição para dividir esta turma, concordamos que nos próximos semestres, o número máximo por turma será de 50 alunos. Ufa!

domingo, 26 de abril de 2009

Reflexões sobre atendimento ao cliente

Ao almoçar com um colega brasileiro neste domingo, iniciamos uma discussão sobre o nível de atendimento ao cliente que temos observado em Luanda, pois depois de perambular por 03 restaurantes e finalmente optarmos pelo último, verificamos que os atendentes não eram corteses o suficiente para justificar a escolha. Não é que tenham sido grosseiros ou deseducados, o que ocorria era a ausência de gestos de simpatia e acolhimento visando nos cativar como clientes.


No início de minha vida acadêmica lecionei a disciplina Fundamentos de Marketing em que buscava destacar a importância das empresas atentarem para o atendimento ao cliente, visando antecipar-se às suas necessidades. A literatura disponível sobre o assunto é demasiadamente profícua e certamente não pode ser desapercebida por aqueles que atuam em mercados competitivos. Luis Marins, escritor e requisitado palestrante na temática, adiciona condimentos ao debate ao propor o “encantamento do cliente” e dá algumas técnicas sobre como conseguir isso.

De fato, os profissionais de marketing estão cientes da chamada dissonância cognitiva, isto é, o nível de satisfação que um serviço ou produto é capaz de gerar em função da expectativa do cliente. Dizem os teóricos, que quanto menor for o nível de dissonância cognitiva, maior será a sua satisfação, cabendo às empresas esforçar-se para reduzir este gap visando alcançar padrão de satisfação considerado ideal. Seria isto possível?

A questão é que tanto no Brasil quanto em Angola, os clientes têm sido muito desprezados. As empresas de telefonia no Brasil são campeãs no volume de queixas nos órgãos de defesa do consumidor, isso depois do cliente ter sobrevivido à saga de tentar resolver seu problema através dos precários serviços de atendimento ao cliente, ou call centers, que mereceriam um capítulo à parte nestas considerações.

Nas minhas perambulações pelo mundo tenho observado que esta não é um herança específica dos países colonizados por Portugal, pois notei grosserias em lugares como Argentina, Uruguai, Alemanha, Itália, França e Estados Unidos, somente para se mencionar alguns lugares.

É bem verdade que nesta discussão não se pode ignorar a cultura, nem tampouco o nível de concorrência dos mercados. Como já mencionei em outra postagem, o brasileiro é tido como sensível, pois não suporta palavras mais fortes que lhe soam como uma agressão, principalmente quando está no papel de cliente. O angolano tampouco gosta de ser mal tratado, contudo, parece-me que graças ao longo período de colonização portuguesa caracterizada pela forte repressão do colonizador, juntamente com a atual demanda notoriamente superior à oferta dos principais itens de serviços, as pessoas daqui acabam por tornarem-se subservientes. Isto é uma hipótese e não pode ser generalizada para todo um povo, pois já encontrei pessoas muito conscientes de seus direitos e deveres!

No entanto, não estariam os prestadores de serviços brasileiros enganando seus consumidores fazendo-se crer que são bem atendidos, quando pelas costas empunham-lhes um faca? Talvez em Luanda tais prestadores não precisam utilizar falsas máscaras, pois sabem que os consumidores não terão muitas opções e, cedo ou tarde, certamente voltarão. Aconteceu isso comigo no incidente da compra das batatas doces, quando a senhora dos balaios ambulantes recusou-se a aceitar minha contra-oferta, deu-me as costas e fiquei sem os tubérculos para o café; porém, no dia seguinte paguei prontamente o que ela propunha, sem maiores negociações. Seria esse um exemplo atípico da “mão invisível do mercado “de Adam Smith?

“Nem tanto ao mar nem tanto a terra” diz um ditado brasileiro. Talvez os prestadores de serviços não precisassem ser tão falsamente pegajosos, como observamos em muitas lojas nos grandes centros brasileiros. Por outro lado, o cliente não deveria ser tão desprezado como ocorre em Luanda e em tantos outros lugares do mundo em que inexiste o chamado “sorriso na voz”. Considero a resolução desta equação um dilema e ao mesmo tempo um desafio!

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Sobre os preços em Angola


É necessário tecer comentários sobre os preços de itens alimentícios praticados em Luanda, considerados os mais caros do mundo.

A moeda local é o Kwanza que pelo câmbio de hoje equivale a U$D 79 e R$ 31. Tanto o Kwanza como o dólar convivem pacificamente no dia-a-dia dos angolanos, sendo possível efetuar compras com ambas moedas concomitantemente, pois as pessoas locais já estão acostumadas e fazem o câmbio com uma rapidez impressionante. Paga-se em dólar, recebe-se troco em Kwanza e por ai vai ...

Existem mercados e mini-mercados espalhados por toda a cidade, a questão é o valor das mercadorias que são elevadas. Para se ter uma idéia, hoje no almoço fui a uma restaurante próximo, muito simples e sem luxos, e pedi o prato do dia equivalente a Kz 1.700 ou US$ 21,50, que consistia num peixe grelhado, arroz, meia fatia de banana cozida e duas fatias de batata doce e só.

Encontramos um restaurante bom, perto do centro, que serve comida a quilo ou take away, como dizem aqui. O interessante é que embora a comida seja pesada, quem serve a porção no prato é o garçom, sob a orientação do cliente. Chama-se Flor da Sé e tem um cardápio variado e sabor bem agradável, com um valor relativamente acessível para os preços locais. Contudo é necessário enfrentar longas e demoradas filas e depois disputar de qualquer lugar disponível, pois o lugar é pequeno para a demanda. Percebo que a gastronomia é um dos segmentos que carecem de investimentos por aqui, quem quiser investir ...

Contudo, é um deleite ir ao mini-mercado, caso não tente converter todos os preços para o R$. Existem produtos de todas as partes do mundo, coisas que sequer conhecia. Neste momento estou tomando um suco embalado na África do Sul, com alguns biscoitos italianos e manteiga francesa. O conselho dos brasileiros que residem há mais tempo é de esquecer este negócio de conversão das moedas, pois por motivos óbvios aqui não é possível encontrar os mesmos valores praticados no Brasil. O importante é tentar manter a liquidez para não decretar falência pessoal e solicitar remessas de dinheiro dos amigos do além mar. (rs)

Também é possível comprar legumes e frutas em todo lugar, pois são facilmente encontrados com senhoras que os carregam na cabeça em balaios para pronta revenda, alguns dos quais com aspectos higiênicos questionáveis. Entretanto, hoje tentei negociar a compra de batatas doce (que pareciam ter bom aspecto), com uma senhora que tem um ponto em frente à portaria do prédio em que moro. Imaginem que ela me pediu Kz 500 (R$ 16,12) por 07 batatas , ofereci Kz 200 (R$ 6,45) por 03 batatas e ela não aceitou e se recusou a vender; nem me deu atenção e, o pior, fiquei sem batatas para o café da noite. Os angolanos são duros na queda, vou continuar exercitando a arte da negociação, mas terei que mudar as estratégias.



Crédito das fotos:
Foto Cuca: José Cardoso, Francisco Lopes e São Pinhão.
Foto Mulheres Vendendo frutas e verduras: Alexandre Coutinho

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Para não dizer que não falei das flores

Apesar do tom pouco favorável nas postagens anteriores, percebo que este país apresenta excelentes condições para aqueles que desejam investir, visto que tudo está para ser feito.

No ano passado, a Angola apresentou um crescimento econômico de dois dígitos e a previsão deste ano é alcançar um crescimento em torno de um dígito, quando o mundo todo fala de perdas e crescimento negativo. Andando pelo caótico centro luandense, percebe-se uma quantidade imensa de gruas com prédios em construção e as perspectivas parecem ser boas.

As principais riquezas são o petróleo e o diamante. Ademais, dos 12 minérios necessários para a indústria atômica, o país possui 09, o que o torna muito assediado. Também cabe notar que possui uma população semelhante a Portugal, cerca de 14 milhões, contudo seu território é algumas vezes vezes maior!

Angola é um país da África que libertou-se do colonialismo português tardiamente, no final da década de 70, através de luta armada e logo depois mergulhou numa sangrenta guerra civil terminada em 2002. Dos dois partidos que se degladiaram, um deles está no poder com amplo apoio popular, ainda que o presidente da república dizem que está no poder há nada menos que 30 anos.

A elite intelectual luandense estudou em Cuba e Lisboa e foram estes os detonadores da guerrilha contra o colonizador, hoje a maioria ocupa cargos públicos governamentais. Tive um contato com um intelectual facinante que doutorou-se em Havana, além de ter sido um compositor e esportista e profundo conhecedor da cultura africana. Uma pessoa de uma cultura extraordinária!

Todavia o analfabetismo é elevadíssimo e somente 0,5% possuem a escolaridade em nível superior! O fato de tão poucos terem o nível superior conduz a situações cômicas. Por exemplo, esta semana tive que procurar a Dra. Fulana, a fim de tratar de uma especificidade de minha chegada na instituição. Todavia, descobri que esta será minha aluna no curso de graduação! Por questão de respeito à cultura local, continuei chamando a aluna de "Doutora" e percebi que todos os professores são "doutores", independente do seu grau acadêmico. Como costumamos dizer "em terra de cego quem tem um olho é rei".

O português falado aqui é muito engraçado para nós brasileiros. Muitos expressões são rudes e, se usadas no Brasil, seriam sinônimo de falta de educação. Estou tentando me acostumar, pois eles dizem que os brasileiros são muito sensíveis (rs). Como em Portugal, o gerúndio aqui não é utilizado tão amplamente como no Brasil; então estamos sempre "a escrever", "a utilizar", "a dar aula" e ao procurar a fila do supermercado descobri que ninguém sabia o que era isto, pois aqui a nossa "fila" é chamada de " bicha"! E quando alguém não entende algo do que você está a falar, costumam dizer "não percebo".

Na minha última aula não entendi uma pergunta de um aluno, apesar deste ter repetido por 03 vezes, precisei da ajuda da turma para decodificar. Além de algumas diferenças de palavras, o sotaque é muito forte e as sílabas tônicas daqui são distintas, o que pode gerar um problema de comunicação. De maneira geral, os angolanos estão acostumados com os brasileiros, pois dizem que existem cerca de 40.000 conterrâneos e as novelas da Globo são muito comentadas.

Ainda não visitei as praias, que dizem ser lindas e assim que for ao interior das províncias farei um relato.
Crédito das fotos: José Cardoso, Francisco Lopes e São Pinhão. Disponível em: http://www.cpires.com/fotos_de_luanda_2005.html

terça-feira, 21 de abril de 2009

Chegada a Luanda






Embora tenha chegado em Luanda, Angola, no último domingo 19.04 ainda estou em fase de adaptação a esta nova realidade. Aqui as coisas são um pouco difíceis, afinal trata-se de um país recém saído de uma guerra violenta, são tantas coisas a serem feitas por aqui que acredito que precisarão de pelo menos algumas décadas para arrumar.

Como a guerra é cruel, especialmente para os mais pobres; sinto muita compaixão destas pessoas, cujo sofrimento está visivelmente estampado em suas faces.

Luanda poderia ser retratada por Dante como uma visão materializada do inferno, exageros à parte, o trânsito é inimaginável e capaz de colocar no bolso qualquer congestionamento no Brasil. Os carros estacionam em qualquer lugar, em filas duplas, triplas, quádruplas, em cima das calçadas, obrigando o pedestre a andar no meio das ruas e disputar espaços entre carros e motos em movimento, enfim um caos urbano.

Estou acomodado num apartamento amplo, muito bom e localizado no centro da cidade. A questão é que o centro carece de infraestrutura, com esgotos a céu aberto, coleta de lixo irregular e nem todas as ruas são asfaltadas, somente as principais.

O que me chama atenção é o volume de carros novos desta cidade com modelos que nunca vi, coisa de outro mundo. Pelo que constatei com US$ 20.000 pode-se comprar um carrão da Hunday ou coisa parecida.

A Universidade que atuo segue possui cerca 5.000 alunos no campus de Luanda, localizada na balburdia do centro. Parte das instalações são boas e outras em fase de ampliação. O que me chamou atenção aqui é a existência do ano Propedêudico, ou ano zero, um período de nivelamento para o curso superior. Uma idéia muito interessante.

As expectativas acadêmicas são boas, contudo ainda preciso superar meu estado de choque inicial.



Crédito das fotos: José Cardoso, Francisco Lopes e São Pinhão. Disponível em: http://www.cpires.com/fotos_de_luanda_2005.html

domingo, 19 de abril de 2009

Primeiras impressões de Luanda

Cheguei em Luanda no domingo 19.04.09 após uma viagem longa pelo Atlântico pela TAAG, linha aérea local. À primeira vista os trâmites de entrada no país foram normais, embora excessivamente lentos, o que verificaria depois ser uma marca registrada.

Fato curioso na chegada foi o agente público da imigração ter solicitado uma propina para um colega de viagem que não o atendeu e teve seu bilhete de despacho das bagagens convenientemente extraviado.

O aeroporto está em reforma, razão pela qual não é necessário descrevê-lo, pois a balburdia existente espera-se que seja apenas provisória.

Todavia, os bairros nos arredores do aeroporto são de uma pobreza extrema, capaz de chocar o visitante mais desavisado. Embora cheguei num domingo, o trânsito era intenso, depois compreenderia que os congestionamentos são uma marca registrada de Luanda, projetada para 500 mil habitantes e atualmente com 4 milhões.

Após as boas vindas pela empresa, ficamos numa casa de passagem localizada num bairro nobre, totalmente diferente da visão dantesca da chegada. Visitamos naquela tarde o único Shopping da cidade, que merece um relato à parte.

Enfim estava na África, apreensivo mas animado com os desafios à frente.