quarta-feira, 29 de abril de 2009

Desafio docente: aprendendo a dar aulas para turmas numerosas na África

Gostaria de compartilhar uma experiência pedagógica que estou atravessando nesta minha estadia em Angola que, apesar do tempo relativamente curto, tem sido demasiadamente enriquecedora.


Numa das turmas que leciono tenho cerca de 100 alunos no primeiro ano da graduação. Em nosso primeiro encontro, no que deveria ser um momento de ambientação, transformou-se num campo de batalha em pleno ambiente de sala de aula, pois os alunos pareciam completamente desmotivados para cursar uma disciplina ministrada por um professor estrangeiro, que para completar era oriundo de um país que também fora ex-colônia de Portugal!


Iniciei de coração aberto tentando estabelecer o chamado diálogo pedagógico, numa tentativa de postura acolhedora, mas obtive poucos ouvidos atentos. Todos queriam falar ao mesmo tempo e a turma do fundão parecia querer testar meus limites a cada instante, tornando a situação insustentável. Para evitar um fiasco pedagógico total, utilizei-me da autoridade docente (não confundir com autoritarismo) e comecei a costurar de forma enérgica alguns acordos com o grupo, definindo-se inequivocamente o tempo para falar e ficar quieto, a necessidade do respeito à fala do colega e do professor, a utilização de telemóvel (como aqui são chamados os aparelhos celulares) etc. Também gastei tempo mostrando a importância da disciplina para a vida profissional deles, mas não senti muita reciprocidade. Meu tempo acabou e me despedi de todos com uma sensação de que teria muitos problemas à frente.


Durante a semana encontrei alguns alunos pelos corredores da universidade e estes foram muito amáveis ao pedir que fosse paciente com a turma, aproveitei e também solicitei paciência recíproca. Na sala de professores esta turma não tinha as melhores referências ... Estava receoso para as aulas seguintes e preparado para o pior, pois na verdade não sabia que estratégias adotar com um grupo tão numeroso e inquieto.

Contudo, quando na próxima aula iniciei a explanação, o silêncio pairava no ar e a maioria parecia mostrar detida atenção; não tive dúvidas, aproveitei a oportunidade para iniciar uma interação com o enorme grupo, lançando perguntas de retórica e, ao falar andava por toda a sala, buscando aproximar-se dos alunos e dirigindo-me individualmente àqueles sentados na frente (turma do gargarejo), no meio e no fundão da sala, estes últimos que causaram tantos transtornos na aula inicial, sentiram-se um pouco desconfortáveis com tamanha atenção. Percebi bom nível de reciprocidade e participação, enfim conseguira instaurar uma aula participativa que tanto prazer dá ao professor e ao aluno!


Na aula subseqüente, utilizei a mesma estratégia: anotei um breve esquema no quadro e continuei perambulando por toda a sala enquanto falava e questionava, muitos queriam respostas para serem prontamente anotadas e eu simplesmente dizia que não possuía receitas de bolos, pois eles teriam que ir atrás das respostas às indagações. Bingo! Parece que consegui chamar a atenção dos alunos e induzi-los a pensar.


Ao sair da sala, escutei um grupo de alunos comentando entre si que minhas aulas tem sido verdadeiras terapias e de fato estão conseguindo pensar de forma mais crítica e não meramente ouvir um professor monotonamente falar sobre o que considera importante. Fiquei tão feliz em ter ouvido este comentário que resolvi compartilhar, pois afinal não são poucos os professores que se encontram em situações similares com turmas pouco acolhedoras. É deveras um desafio docente! Espero continuar conseguindo manter o mesmo nível de aulas que tive nesta semana.


Em tempo, a coordenação do curso tampouco concorda com turmas tão numerosas e visto que não há espaço físico disponível na instituição para dividir esta turma, concordamos que nos próximos semestres, o número máximo por turma será de 50 alunos. Ufa!

3 comentários:

  1. Que situação meu amigo e como é grande esse desafio. Mas fiquei muito feliz por você ter conseguido contornar a situação, que aparentemente não mudaria tão rápido assim! Agora fiquei morrendo de vontade de assistir uma aula sua!

    Grande abraço e muito sucesso aí!

    Nailson Saturnino

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  2. Turmas com este perfil são as minhas preferidas!

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  3. Eniel,

    Vejo que passou por um grande desafio. Porém você teve habilidade e conseguiu contornar a situação.

    Abraços

    Albérico Amorim

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